terça-feira, 9 de outubro de 2012

Sobrevivente de naufrágio na Paraíba conta como foi perder companheiro



 Renascimento. É o sentimento dos sobreviventes do naufrágio da embarcação Horizonte 2, afundado na última quarta (3), em mar paraibano. Sete dos nove tripulantes foram encontrados depois de passar três noites à deriva. Apenas o engenheiro de pesca pernambucano Rivaldo Soares de Souza Lima Segundo, de 31 anos, e o segundo zelador, identificado como Flavinho, 20, continuam desaparecidos. As buscas continuam sendo feitas por vários órgãos paraibanos, encabeçados pela Capitania de Portos do Estado.


Entretanto, um dos sobreviventes, o motorista do barco, Francisco Amorim, 39, relatou ao NE10 a morte do zelador. "Enquanto estávamos no mar, ele estava dando força para todos, dizendo que íriamos conseguir encontrar a terra e nos salvar", afirmou. De acordo com Francisco, depois da explosão dos barcos, os nove tripulantes estavam juntos, amarrados a uma corda para não se afastar. Quando percebeu que não conseguiria mais sobreviver, segundo o sobrevivente, Flavinho avisou aos colegas e pediu que dessem um recado aos pais: que os amava muito. "Pedimos que ele tivesse força, que tentasse boiar e segurasse, mas percebemos que ele não tinha mais forças. Disse as últimas palavras e desceu.

O NAUFRÁGIO - Francisco Amorim relatou que, durante a noite da quinta, apenas ele, o capitão do barco e outro tripulante estavam acordados. "Eram umas dez e meia (22h30). Eu estava na sala de máquinas quando percebi que o barco estava pegando fogo na parte de cima."

Francisco acordou os companheiros. Todos foram para a proa do barco e, assustados, tentaram procurar maneiras de apagar o fogo. "Mesmo com a mangueira, não conseguimos. As chamas tomaram posse do lugar onde estava a balsa e os coletes salva-vidas", contou.

Ainda na proa, os tripulantes estavam procurando uma maneira de sair do barco. Francisco conta que pegaram uma corda grossa, amarrada à embarcação, e jogaram ao mar para se segurar. O barco, que saía do Recife para pescar atum em mar aberto depois do Arquipélago de Fernando de Noronha, já havia mudado de sentido e o fogo, atingido a proa.

"O barco saiu para o leste e nos levou. Depois, o fogo atingiu até a corda. Decidimos nos afastar por causa do perigo de explosão" relatou. Segundo Francisco, havia mais de 10 toneladas de óleo diesel no barco. A embarcação teria explodido por volta das 4h da sexta-feira (4).

TRIPULANTES - Depois da explosão, os nove homens ficaram sozinhos em alto mar, mas continuaram segurando na corda para não se afastar. "Só pensávamos em alcançar a beira-mar. Tínhamos muita esperança", afirma Francisco.

O tripulante conta que, por volta das 9h, um barco pequeno foi visto. O primeiro náufrago resgatado, Ramiro Freires Cacho Junior, aparentemente o mais forte, tentou nadar para que os pescadores os vissem. Sem sucesso.

A essa altura, o sobrinho de Francisco que estava no barco, Alex Ramon Lopes, 19 anos, já não sentia mais as pernas e os braços nem conseguia abrir os olhos. "Foi nesse momento que decidi seguir só com ele. Achei que o meu sobrinho seria prejudicado se parássemos para esperar. Só pensava no sofrimento da minha família se algo acontecesse", contou. Francisco e Ramon são do Pará e vieram para o Recife para trabalhar (o tio há mais de dois anoe e o sobrinho há três meses).

Desde o momento em que se separaram do grupo, ainda na sexta-feira, passaram por vários momentos de desespero até a madrugada do domingo (7), quando conseguiram chegar a uma praia deserta na Paraíba.

"O meu sobrinho já não aguentava mais, já estava tendo alucinações. Mas pensava que iríamos sobreviver, que iríamos nos salvar. Ramon começou até a conversar com pessoas que não estavam lá, como o menino que havia morrido (Flavinho)" - Francisco Amorim
Francisco também já estava tendo alucinações e começou a temer também não aguentar mais. "O incentivo foi uma boia que vi a mais ou menos 10 metros de onde estava. Ramon, que não conseguia abrir o olho, nesse momento, abriu. Tentamos nadar até a boia, que sempre desaparecia quando chegávamos perto e depois reaparecia. Quando finalmente consegui chegar perto, uma onde me arrastou para a terra de uma forma que nem percebi", afirmou.

O mesmo aconteceu com o sobrinho. Os dois chegaram a uma praia ainda na madrugada. Segundo Francisco, cavaram um buraco para aproveitar o calor da areia e dormiram até por volta das 10h, quando saíram para procurar um telefone. Eles caminharam por horas até chegar à Praia Bela, quando o tio desmaiou e só acordou no hospital, em João Pessoa.

PERNAMBUCO - Os sobreviventes foram transferidos ao Recife na noite dessa segunda e nesta terça e já estão com a família. "Foi muito especial saber que as pessoas se preocupam comigo e gostam de mim. Ainda não consegui ter uma reação, mas aprendi a importância da vida. É gratificante essa nova oportunidade de renovação", afirma.
A empresa responsável pela embarcação é a pernambucana Pronaval Projetos e Construções Navais. Em nota, informou que "está empenhando todos os esforços para não somente realizar o resgate do restante da tripulação, como manter as famílias atualizadas”. O tripulante confima. "O dono da empresa está nos apoiando e fica na praia sempre preocupado."
Francisco ainda não decidiu se quer continuar exercendo o trabalho de toda a vida. "Minha esposa e os meus filhos (três adolescentes e uma enteada) não querem que volte a viajar, mas não sei se vou arrumar outro emprego que mantenha o nosso padrão". Antes de tudo, Francisco quer que o engenheiro de pesca seja resgatado com vida.
Fonte: N10

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